29 de mar. de 2025

 "Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra (...)"

Nunca esqueci esse momento de minha vida.


Não há sensação mais indizível que a que ocorre quando algo que te cativa ratifica tua existência.
Quando parece que se tem caminhado uma eternidade entre névoas, e algo além de você as dissipa; quando, quase que de súbito, o véu de invisibilidade que te cobre se encolhe e, mesmo esquivo, tentando seguir incógnito, és desnudado por completo e nenhum átomo teu passa incólume.


Jamais escapei do teu olhar.

Com essa mirada, acho que me tornei gente; e tenho quase certeza que, sem ela, é bem provável que eu volte a ser uma miragem: um reflexo torto num deserto de almas; uma ilusão de um mundo sem tempo, à espera de outrem que ainda acredite que o sertão vai virar mar.


Por certo andaste o deserto.
Ou fui eu que o findei?

Será, talvez, que não deveríamos usar palavras assim, como "especial", "diferente" ou algo que o valha?

De verdade enxergamos um ao outro? Se sim, quando foi que a visão se desfez? Quando foi que a retina quis desver? Onde a memória quis desvanecer? Qual dor tapou feito peneira o sol que se avolumou gigante em nossas vidas?

Olhamos juntos para algum lugar distante? Ou fomos apenas paralelos um do outro, destinados a nunca nos encontrar e orbitar um ao outro feito planetas num arremedo triste de nossa própria galáxia? A experimentar brevemente o êxtase e depois eternamente sentir apenas o puxo de uma energia desconhecida para os pequenos viventes, como uma gravidade jocosa a nos torturar?


"Aonde está você agora além de aqui dentro de mim?"


Eu sei e sinto nos meus ossos que poderia chorar tantas lágrimas que esse deserto de que falo (ou que falaste) viraria mar.

E busquei esse mar repetidas vezes, peixe que sou, mesmo temendo a falta d'água. Porque mil vezes preferiria secar num oceano de ilusões do que encarar a estiagem desse deserto de almas.




Se existe uma semente, latente, nesse deserto, eu espero com todas as minhas forças que teu olhar ainda guarde água suficiente.